Sob o lema “OTM-CS, 50 anos na luta pelos direitos laborais e sindicais” foi celebrado este ano o Dia Internacional do Trabalhador.

Por trás das conquistas históricas dos operários, estão os rostos das mulheres que enfrentaram jornadas exaustivas e condições insalubres para garantir direitos fundamentais que giram em torno da igualdade, segurança e bem-estar.
Por: Hélder Catarino
Alusivo ao Dia Internacional do Trabalhador, celebrado anualmente a 01 de Maio, a revista Xiluvalink conversou com duas mulheres de fibra, força interior, coragem e determinação que todos os dias se levantam cedo e vão à luta.
Trata-se da Suzete Nguenha e Célia Matosse, carinhosamente apelidada como Rainha da Sucata com orgulho para quem as conhece, nunca perderam a fé nem a esperança, pois é essa determinação e garra que lhes faz mulheres diferentes. Uma é motorista de chapa 100 e a outra dedica-se a recolha, compra e venda de sucatas.
As batalhas são meio a adversidades de vária ordem, mulheres que actuam em profissões ou actividades tradicionalmente associadas aos homens enfrentam barreiras como o preconceito do género, a descrença na sua capacidade técnica e a falta de modelos de liderança feminina. A constante necessidade de provar o seu valor também é um dos grandes desafios e gera desgaste físico assim como emocional.
É sempre um real desafio cruzar as estradas da capital moçambicana, Maputo, em busca do ganha-pão. O cenário piora em dias de chuva, de frio ou de calor intenso. Homens e mulheres vêem-se forçados a sair à rua para cumprir com as suas exigências, quer laborais, quer estudantis.
À semelhança de homens e mulheres, as crianças não são uma excepção, diariamente erguem-se e vão ao encontro das suas obrigações. No final de cada dia de trabalho ou de escola, cada um olha para trás com um ar de alívio e uma sensação de um dever cumprido, com ou sem sucessos o importante é participar na disputa e ter “ganho” o dia, afinal a vida é assim, repleta de surpresas amargas ou doces.
Com um olhar sereno e um largo sorriso, Suzete Nguenha, senta-se atrás do volante para iniciar a sua jornada laboral, é motorista de semi-colectivo de passageiros, vulgarmente carrinhas de 15 lugares, “chapa-100”. Opera na rota Praça dos Combatentes, famoso Xiquelene e Costa do Sol.
Suzete Nguenha, tem 54 anos de idade, mãe de um rapaz de 21 anos, trabalha como “chapeira” desde o ano 2000. Quando começou a actividade operava na rota Praça dos Combatentes/ Manhiça (Xiquelene/Manhica).
Segundo nos conta, trabalhou por um período de dois a três anos nessa rota. “Tive que me reinventar quando o chapa em que trabalhava teve problemas mecânicos, ou seja, uma avaria grossa e fui forçada a ficar em casa sem qualquer meio de sobrevivência. Depois de dois anos sem fazer absolutamente nada, pensei em procurar novas formas de juntar dinheiro e comprar a minha própria mini-busy. No ano seguinte consegui amealhar dinheiro comprei a minha própria viatura”, avançou Suzete.
“Devido à distância entre a Cidade de Maputo e o Distrito de Manhiça, optei por mudar de rota, andava sempre cansada e sem tempo para nada. Actualmente trabalho na rota Praça dos Combatentes / Costa do Sol, aos finais de semana não costumo trabalhar, pois levo o carro para manutenção de rotina”.
“Fazer chapa não é fácil aqui na cidade de Maputo”, desabafa ofegante a nossa entrevistada acrescentando que, “para além dos problemas do congestionamento, causado principalmente pelo alto e crescente número de automóveis e chapas, a manutenção dos veículos é inadequada. Os condutores fazem manobras perigosas perante o olhar impávido das autoridades reguladoras”, segundo a motorista este é um dos principais problemas de trabalhar no seio da cidade.
Suzete têm um coração que bate por várias vidas quando pega o volante, a ansiedade de chegar ao destino é enorme, mas sempre opta pela condução prudente e defensiva.
Por outro lado, encontrámos Célia Matosse, é outra mulher batalhadora, com 43 de idade mãe de 5 rapazes. O filho mais velho, de 24 anos de idade, teve que abandonar a escola e emigrar para África-do-Sul em busca de melhores condições de vida para auxiliar os seus pais nas despesas quotidianas, pois ambos trabalham por conta própria. A mãe dedica-se à compra e venda de sucatas, enquanto que o pai é pintor e bate-chapa de automóveis.
Os outros irmãos continuam a ir à escola graças as poucas moedas que os seus pais conseguem juntar para dar lhes uma educação aceitável.
Célia Matosse faz compra e venda de sucatas desde 2008. Com o que ganha ajuda o marido a sustentar a família. “Não ganho muito, mas com o que consigo dá para nos virarmos”, afirmou a Rainha da Sucata.
Apesar de conhecer muito bem o risco que corre ao pegar na máquina rebarbadeira, não encontra outra saída para escapar do seu árduo trabalho.
Para a Raiznha da Sucata o custo de vida tende a elevar-se cada dia que passa, não obstante esse facto, já houve momentos em que facturava com a compra e venda de sucatas. “Manusear este produto já teve momentos de pico”, sublinhou Célia.
“Nos tempos que correm “explode” o número de pessoas que fazem este tipo de trabalho, quando comecei éramos poucos nem vendíamos a sucata como tal, comprávamos baterias, bacias, cadeiras estragadas e revendíamos”, desabafa nostálgica.
Matosse destaca que um dos seus maiores sonhos é conseguir uma máquina de soldar para dar seguimento a actividade que desenvolve visto que hoje em dia o negócio de sucata já não é rentável.
A Rainha da Sucata faz um apelo: “se eu tivesse máquina de soldar a realidade seria outra, com a máquina eu poderia fazer fogões e vendê-los para aumentar a renda de casa”.
O equipamento usado para cortar o ferro é obtido a título de aluguer, Célia Matosse, ultimamente compra carros em estado obsoleto de conservação, ou podres. Com ajuda do instrumento despedaça, aproveita uma e outra peça, e o resto vai revender no mercado Vulcano onde está sedeado um dos maiores compradores de sucatas ao nível da capital moçambicana.



