Viver ou sobreviver de reciclagem

Homens e Mulheres lutam diariamente em busta do seu ganha-pão através de diversas formas. Mãe e filha única, escolheram unem-se para percorrer as ruas da cidade de Maputo a procura de produtos recicláveis para o seu sustento. A semelhança de vários moçambicanos, Isaura e Ana encontraram na reciclagem o caminho para contornar a pobreza severa.
Vivem de forma autónoma colectando materiais recicláveis pelas ruas da capital moçambicana. Papel, plástico, metal, e vidro são alguns dos materiais que Isaura Joaquim, solteira, de 60 anos de idade e Ana António de 32 anos de idade recolhem para a posterior venda. Isaura Joaquim, mãe da Ana António dedica-se a actividade de recolha de produtos recicláveis a sensivelmente 4 ou 5 anos.
“Estreei na lixeira de Hulene devido à carência de emprego e as necessidades diárias sufocavam-me. Inicialmente procurava os produtos, organizava por lá na lixeira e depositava num local que achava que fosse seguro, mas sempre sofria roubos por isso acabei deixando de fazer a recolha na lixeira”, afirmou Isaura Joaquim, visivelmente enraivada.
“Devido a roubos recorrentes na lixeira comecei a seguir a estrada sozinha, tudo que conseguia carregava para casa e armazenava. Por mais que fosse pouco amontoava para depois pesar e revender. Com o dinheiro resultante da venda consegue pelo menos comprar um terreno, comprar alimentos para o meu sustento e pagar a mensalmente a renda da casa, acrescentou Isaura Joaquim.
Na mesma linha de abordagem a nossa interlocutora avançou que depois de trabalhar arduamente conseguiu amealhar algum dinheiro através do “xitique” que fazia com as amigas, comprou uma carrinha de mão, apelidada por “Txovha Xita Duma”. Com o passar do tempo a nossa fonte começou a percorrer alguns pontos periféricos da cidade de Maputo com a ajuda do neto, Gabriel, empurrando o “Txovha”. Gabriel é um dos cinco filhos da Ana António. Quando Isaura Joaquim começou com a actividade de reciclagem o menino vivia com ela, onde ajudava com os trabalhos domésticos. Isaura adquiriu o txovha na altura a cerca de 3000 mil meticais.
Ana António é filha única da Isaura Joaquim e é mãe de cinco filhos, dos quais três são meninas e dois rapazes, todos eles em idade escolar. Vive maritalmente no bairro de Hulene “B”, colhida pelo sofrimento e desemprego aceitou sem hesitar o convite da sua progenitora de lhe fazer companhia na caçada aos materiais recicláveis.
“Minha mãe convidou-me, desse deixa de depender apenas do seu marido vamos em busca da nossa sobrevivência porque o seu marido não consegue arcar com todas as despesas da casa”, verbalizou Ana António, tendo de seguida afirmado que “trabalho com a minha mãe a precisamente três anos, apesar dos desafios consigo ajudar o meu marido com a alimentação e assegurar que as crianças continuem indo a escola”.
“Nunca dormimos sem comer e jamais as crianças faltarem a escola por falta do material escolar, chinelos ou sapatos sempre fazemos um esforço redobrado para conseguir gerir a situação”, adiantou.
Na mesma linha de abordagem a nossa fonte afirmou “todos os dias saímos para procurar produtos recicláveis e guardamos, quando vemos que é um tamanho mais ou menos aceitável chamamos o carro para vir pesar. Ultimamente, este negocio não é muito rentável como antigamente. Em outros tempos a pesagem de latas um quilo custava 15 meticais e plástico 10 meticais mas ultimamente a lata custa 10 meticais e plástico 7 meticais. Por vezes até podemos ter um plástico cheio e volumoso mas que não chega a pesar quase nada.
Por exemplo hoje chamamos o carro para vir pesar, conseguimos acumular as coisas durante toda a semana passada. Minha mãe conseguiu por exemplo ganhar 1,300 meticais usou uma parte para o xitique diário e a outra parte para pagar renda da casa e eu consegui 800 meticais, com esse valor juntei para fazemos o xitique que por dia são 100mt.
“Eu saio de casa geralmente às 5 horas, passo da casa da minha mãe levar uniforme e saímos de lá às 6 horas. Semanalmente fazemos uma escala dos lugares que iremos visitar ao longo da semana, Bairro do Aeroporto, Mercado de Mavalane e Hospital de Mavalane. Segunda-feira vamos ao Hospital de Mavalane, nas terças e sextas-feiras vamos ao Mercado de Mavalane, aos sábados trabalhamos no bairro do Aeroporto, diariamente até às 12horas já estamos de volta a casa”, concluiu Ana António.
Os que trabalham com a reciclagem enfrentam alta vulnerabilidade social, baixa renda, exposição a riscos de saúde e preconceito mas desempenham um papel crucial na sustentabilidade ambiental e na economia local. A informalidade, condições de trabalho insalubres ou seja, o facto de os resíduos estarem misturados com outros materiais mina em grande medida as condições de saúde das catadoras.





